Numa esquina, a comprovação da minha tese

Na piauí do último mês:

Godoy é um misantropo, um militante da reclusão. O primeiro sinal de que a solidão era o seu destino surgiu em junho de 2002, depois da morte de Cristiana, sua companheira de 27 anos. Taciturno, o embrião de eremita foi ao supermercado, comprou um lote duradouro de biscoitos – em especial, waffles de morango, que ele muito aprecia –, estocou-o na despensa e decidiu se trancafiar em casa para sempre. Entretanto, não estava pronto para tal radicalismo. No terceiro dia, uma quinta-feira chuvosa, foi acometido por uma solidão tão atroz que ele não teve dúvidas: desceu de pijama (listas alaranjadas dessa vez) e puxou uma longa conversa fiada com o porteiro que antes mal cumprimentava. Deu-se conta de que o isolamento total, sem visitas nem telefonemas, beirava o exagero dos loucos.

Aos poucos, ele encontrou meios de se adaptar. Abriu brechas para a visita ocasional de amigos e deu habeas corpus ao telefone, que usa sem nenhuma restrição. A clausura se tornaria cada vez mais exitosa.

No início de 2006, duas decisões cruciais arremataram a criação do mundo ideal de Sebastião Godoy: a assinatura de uma boa banda larga e do pacote mais completo de tevê a cabo, composto de 124 canais. Tomadas essas medidas, Godoy olhou em volta, suspirou de prazer e disse adeus ao mundo. Saiu do prédio apenas seis vezes nos últimos dois anos, o que dá uma saída a cada 121 dias, quase sempre para tratar de pendengas bancárias e ir ao médico.

Um pequeno detalhe que explica tudo:

Pior, bem pior, seria encarar São Paulo. A seu juízo, a capital já não é uma cidade. “É uma gaiola abarrotada de passarinhos que se bicam para comer o pouco alpiste que sobrou na lata”, pondera, metafórico. Em 1999, ao se aposentar como atendente de caixa do Banco do Brasil, Godoy concluiu que de nada adiantava morar num lugar com vasta agenda cultural se o trânsito e as filas o impediam de aproveitá-la. Uma vez, chegou a ficar preso durante três horas num congestionamento da Marginal Tietê. Até onde alcançavam seus 2 graus de miopia, divisava um horizonte cinzento de carros, carros, carros. Também se viu cercado por outros tantos milhares de paulistanos, mas se sentia estranhamente só. Perdeu o horário do cinema, vendeu o carro, passou a contar com ônibus, metrô e carona. Continuou a perder o cinema e a estar à mercê do caos urbano.

Veja bem, não falo de São Paulo, mas do trecho em negrito

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