O Eterno Gol Que Não Veio

Rodrigo Lôbo/ JC Imagem

Rodrigo Lôbo/ JC Imagem

Dez e meia da noite, nas ruas quase desertas de Jardim Paulista. Não o bairro rico de São Paulo, mas a evolução de um antigo conjunto habitacional da Cohab, transformado no decorrer dos anos num bairro de classe média até que bem arrumado  na cidade do Paulista, 15 km ao norte de Recife. Classe média baixa, média média e até lampejos de classe média alta depois da era Lula,  o que explica que o Bolsa Família nem de longe pode ser a causa única da votação digna de Saddam Husseim (90% dos votos em 2006) do presidente nesta cidade. Mas, puxa, tergiverso, e muito. Não é de prosperidade e otimismo que vou falar aqui, mas de coisas mais bonitas, talvez.

Pelas ruas desse bairro voltava pra casa Cosme Rondó, com a sua camisa oficial do Santa Cruz Futebol Clube, logo após um vexatório empate em 2 a 2 com o CSA de Alagoas concluir a participação na série D, e sacramentar assim a  posição do seu time como o   Mais Decadente Clube do Futebol Brasileiro.

Cosme passa na esquina já conhecida do caminho de volta da casa da namorada, onde funciona um arremedo de barzinho.  Um homem o chama, ativando o medo de assaltos e outras violências comum a qualquer habitante da Grande Hellcife. (Sim, a cidade progride, mas continua uma merda). O segundo olhar, e percebe  apenas um bêbado,  que está no arremedo de barzinho, por trás de um muro.

“O que aconteceu com o Santa? O Central ganhou?”, diz o bêbado

“O Central ganhou no último minuto. Mas o Santa empatou, não deu…”

Ele sabe o que o empate significa, mas ainda pergunta, incrédulo:

“O Santa foi eliminado?”

“Foi, é foda. Um monte de bola na trave, tantos jogos fáceis de ganhar, e nada. Os atacantes do time são ruins mesmo, mas, puta que o pariu, tantas bolas na trave…”

Antes que Cosme começasse, numa rua deserta às dez e meia da noite, a discutir com um bêbado sobre os fatos e as causas da patética trajetória recente do Tricolor do Arruda, o bêbado levanta a camisa e mostra a faixa tricolor e o tradicional emblema no lado esquerdo do peito.  Levanta a mão direita com o punho fechado e proclama:

“O importante é que a gente nunca vai abandonar esse time. Pode ser o que for, eu sempre vou torcer pelo Santa Cruz”.

Não resta nada a Cosme que não seja repetir o gesto, e fazer o mesmo juramento. Que ele, Cosme, julga até desnecessário – porque ele sabe que nunca haverá outro clube além do Santa Cruz, que não haverá outras cores além daquelas do mais belo dos ofídios, a cobra coral.

***

Sim, era sabido que o time não era grande coisa. Que os atacantes eram incompetentes. Que a diretoria errou ao dispensar um treinador e chamá-lo de volta na última hora. Que a pressão  de disputar um campeonato que por si só era vexatório destruiu psicologicamente o time. Há muitas explicações, há muito a ser aprendido, há muito a melhorar e organizar.

Há explicações racionais, há a competência, há o talento, ou a falta dele. Mas há, além e acima de tudo, o caráter aleatório, cruelmente fatalista do futebol.  Independente de perspicácias técnicas e observações sensatas, a trágica campanha do Santa Cruz na série D em 2009 assume contornos metafísicos.  Sobrenaturais, diriam os crentes de que há algo sobrenatural. Eu, que não sou dessa turma, vejo em tudo um lição sobre o que é acontece na nossa vida de frágeis pedaços de carne e osso sobre a terra.

Porra,  só uma vitória dentro de casa era necessária. Um gol a mais em qualquer empate, dois gols que nem seriam tão difíceis nas derrotas. Em um único jogo, contra o Sergipe, quatro bolas na trave. Mais duas bolas na trave no jogo contra o Central em Caruaru. Carrilhões de oportunidades de gol perdidas.  É o roteiro já decantado em clichês  (“quem não faz leva”, “o adversário gostou do jogo”)–  um time domina, não tem competência de fazer o gol, leva uma paulada, se desequilibra, não levanta mais.  Mas como pôde se repetir tantas vezes?  O time era ruim, claro, os atacantes mais ainda – mas era claramente menos ruim do que os outros times do grupo, e provavelmente no mesmo nível dos outros times da série D que subirão neste ano.

No último jogo da fase, era preciso uma vitória do Santa, e outra do Central contra o Sergipe, em Aracaju. A sua parte o time caruaruense fez, com um gol no último minuto.

E então era só um gol do Santa. Nada a mais. O jogo com o CSA estava 2 a 2, era só um gol. Um gol a mais. Um golzinho só. Uma bola um pouco abaixo. Um pouco ao lado. Um pouco adentro. Passar a linha, e tocar na rede, mesmo que levemente.

Mas o gol não vinha. E não veio.  Até o juiz apitar, e não haver mais nenhum gol para acontecer.

O futebol é a melhor metáfora da vida, e o jogo de hoje, todos os últimos jogos do Santa Cruz, aliás, são metáfora  do que nessa vida há de mais desolador. Onze homens em campo e milhares fora dele, observando os Gols Que Nunca Vieram. Por culpa do acaso, da incompetência, da falta de talento, da arrogância… Mas sabe-se que eles poderiam ter vindo, independente de tudo isso.  Não eles, mas Ele. O Gol.  Um gol. Um golzinho, só um golzinho, mixuruca, feio que fosse.

E no fim, a tristeza diante dele, o Eterno Gol Que Não Veio. Que poderia ter vindo, que mudaria as nossas vidas, nem que fosse a pra dar a esperança que vai durar apenas até o próximo jogo, o próximo grupo, o próximo mata-mata.

Mais impressionante, e mais eloqüente testemunho do que é a humanidade, é a escolha dos milhares que acompanham o clube ao ver esse espetáculo triste. Diante desse esporte maluco,  em que o maior ou menor dos talentos é frágil diante da sorte, das graças da alea, a escolha canina pela fidelidade absoluta, sem negociação, pelo time e suas cores.

Há uma lição sobre a vida, sobre a humanidade mesmo, nisso tudo. Eu não sei dizer com exatidão o que é, mas que há, há.  Como xiitas chorando por seu mártir Hussein, como os escravos e miseráveis esperando a volta de Cristo nas catacumbas romanas, como seguidores da Cabala Luriânica procurando os pequenos pedaços da luz divina pelo mundo…   Assim segue a história d’O Clube Mais Decadente do Futebol Brasileiro e a sua torcida, que aos pouco se transforma numa lenda, num símbolo mágico do que é a condição humana sobre a terra.

Anúncios

2 Respostas para “O Eterno Gol Que Não Veio

  1. Texto excelente. Me solidarizo contigo.

  2. eu comentei com um colega meu, igualmente tricolor: nosso time parece uma exemplificação clara da lei de murphy, já que tudo o que podia dar errado pra gente, deu.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s